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Feminicídio ou disputa por terras: suspeitas da morte de influencer do agro

23/06/2026 - Atualizado em 23/06/2026 22h39

MUTUM (MG) - "As principais suspeitas são de feminicídio e disputa de terras", declarou Carina Goiatá, advogada da família da produtora rural Alzira Maria Theodoro Luiz, conhecida nas redes sociais como “influenciadora do agro” e que foi morta a tiros dentro da própria casa, em 8 de junho, em Mutum, no Vale do Rio Doce. Ela tinha 43 anos e deixou quatro filhos. A Polícia Civil (PCMG) não confirma as linhas de investigação e informa apenas que “as diligências seguem em formato confidencial ou caráter sigiloso”.

Em 2025, Alzira se relacionou com um homem. Porém, quando descobriu que ele era casado, findou o relacionamento. “Cerca de um mês e meio antes da morte dela, minha mãe voltou para Mutum”, relata o filho mais velho, Bruno Theodoro Moço, de 27 anos, que mora em Conceição do Castelo, no Espírito Santo, onde a influenciadora, nascida em Mutum, também morou no último ano.

Constantemente bombardeada com propostas para vender suas terras, a influencer passou por um susto no segundo dia após retornar ao sítio localizado na cidade do Vale do Rio Doce. “Ela estava dormindo, e bateram forte na janela. Ela gritou, e a pessoa (suspeita) fugiu”, recorda Bruno.

Sob um clima de medo e insegurança, a influenciadora contou com a companhia de dois de seus filhos - Daniel, de 25 anos, e Antonías, de 20 -, e um funcionário do sítio durante “alguns dias”, relata Bruno. A outra filha dela, Maria, de 18, mora com o irmão mais velho no Espírito Santo.

No entanto, em menos de 24 horas depois que eles deixaram a casa, em 8 de junho, a mulher foi alvejada na cabeça. Dois homens em uma moto, não identificados, são apontados como os responsáveis pelos tiros. “Esperaram ficar sozinha para fazer isso com ela”, completou o filho, referindo-se à morte de Alzira. Até o momento, ninguém foi preso pelo crime.

Para o filho mais velho de Alzira, o crime apresenta indícios de planejamento. A principal suspeita é que a vítima vinha sendo observada desde que retornou a Mutum.

Bruno aponta incômodo pela forma como as autoridades de Mutum estão guiando o caso. “Acho que a investigação só está de pé até agora pelo esforço que nossa família está fazendo. Te garanto: se minha mãe não tivesse essa quantidade de seguidores, isso cairia no esquecimento, e minha mãe seria só mais uma”, afirma o primogênito da influenciadora.

O filho também teme que o caso perca força com o passar do tempo. "Tenho certeza que, se deixarmos de falar e cair no esquecimento, não teremos nenhuma resposta."

Segundo a advogada Carina Goiatá, o sentimento predominante entre os familiares é de medo. "Não conseguem explicar por que fizeram isso com a Alzira."

Relação com homem comprometido e disputa por terras

Embora não existam suspeitos formalmente apontados pela polícia, a advogada enfatiza que investigações paralelas realizadas pela família levantaram informações que colocam duas hipóteses no centro das atenções.

Segundo Carina, uma das linhas envolve um relacionamento vivido por Alzira no ano passado. O homem teria se apresentado como divorciado, mas posteriormente a influenciadora descobriu que ele ainda era casado e terminou o vínculo.

No entanto, a influenciadora passou a ser perseguida pelo homem e a esposa dele, diz.

"A esposa descobriu e começou a mandar mensagens (para Alzira). Ele não aceitou o término com ela (influenciadora) e continuou insistindo", relata Carina.

Segundo ela, mensagens recebidas pela produtora rural mencionavam episódios de violência doméstica já sofridos pela esposa do homem e traziam um tom ameaçador de que algo semelhante poderia acontecer com Alzira.

A outra hipótese considerada pela defesa envolve a propriedade rural da vítima. Alzira era dona de um sítio com cerca de 12 hectares, onde cultivava café e produzia conteúdo sobre o agronegócio nas redes sociais - em seus perfis, possuía 70 mil seguidores; no TikTok, são mais de 1 milhão de curtidas.

Áudio vazado e briga por venda de café são desmentidos

Nos dias seguintes ao assassinato, diferentes versões passaram a circular pelas redes sociais e grupos de mensagens. Uma delas apontava um suposto desentendimento envolvendo a venda de sacas de café. Outra se baseava em um áudio atribuído ao filho da vítima. A advogada da família nega ambas as versões.

Segundo Carina, a última colheita de café da produtora rural ocorreu em maio do ano passado e não teve um bom resultado. Foi justamente por causa das dificuldades financeiras da lavoura que Alzira decidiu trabalhar como cuidadora de idosos em Conceição do Castelo para reunir recursos e investir novamente na propriedade.

Bruno também afirma ter sido alvo de acusações após o crime. "Fui alvo de muitas acusações de fazer isso por herança", relatou o filho. “Pelo contrário, nós ficávamos muito felizes por ele ter a casinha dela, o sítio, conquistar as coisas dela.”

Ele evita apontar suspeitos publicamente. "Suspeita a gente sempre tem, mas se eu acusar alguém, posso cometer o mesmo erro de quem está me acusando", diz.

Recompensa de R$ 2 mil por informações

Diante da falta de respostas, a equipe jurídica criou um canal próprio para recebimento de informações e denúncias sobre o assassinato.

A iniciativa oferece recompensa de R$ 2 mil por alguma informação que auxilie na investigação e busca estimular moradores da região a compartilharem o que sabem de forma segura. "Já tivemos 11 denúncias (até as 18h dessa sexta-feira - 19/6), dentre elas, uma bem forte. Só podemos passar para a polícia depois de verificar", afirma.

Carina acredita que o silêncio em torno do caso pode estar relacionado ao medo de retaliação por parte dos criminosos.

Advogada com medida protetiva é assassinada pelo ex em MG

Polícia mantém sigilo

Desde o assassinato, a reportagem procurou a Polícia Civil e a Prefeitura de Mutum em busca de informações sobre suspeitos, linhas de investigação e possíveis avanços no caso.

Em várias ocasiões, a Polícia Civil respondeu ao Estado de Minas, por meio da mesma nota, que “as investigações seguem em andamento sob sigilo e confidencialidade”.

O prefeito da cidade, Claudinei Clemente (Republicanos), disse que conversa com a polícia diariamente, mas não comentou detalhes sobre as apurações.

Estado de Minas

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